domingo, 28 de junho de 2009

O teatro do absurdo e os bobos da corte


Daniel Thame

Do deputado Fernando Gabeira, luminar da ética, descobriu-se que contratou a namorada para prestar serviços a seu gabinete.

Resposta: contratou-a quando era apenas namorada, depois que passou a ter uma relação estável (eufemismo dos tempos modernos para “viver juntos”), nunca mais utilizou os serviços, profissionais é claro, da moça.

Do senador Cristovam Buarque, outro luminar da ética, soube-se que a sua mulher foi colocada à disposição do gabinete de um senador amigo

Resposta: ele não sabia disso, mas garantiu que se houver irregularidade, aceita ser punido, desde que todos os envolvidos em irregularidades também sejam punidos.

Do senador César Borges, apurou-se que seu nome aparece entre os inúmeros atos secretos do Senado.

Resposta: exige
que alguém explique como seu nome foi parar lá, certamente deixando entendido que se por um ato secreto ele foi beneficiado, isso se deu sem o seu conhecimento.

De um dos netos do senador José Sarney, não aquele estudante universitário que recebia cerca de 8 mil reais por mês do Senado e que, flagrado, passou o cargo à mãe; mas outro, enfronhado nos meandros bancários, revelou-se que montou uma empresa para intermediar empréstimos consignados entre um grande banco e...o Senado!

Resposta: o neto disse que estava vencendo na vida pelos méritos próprios e não por apadrinhamento (não seria “avôdrinhamento”, neologismo que está muito em voga?) e o avô, envolvido em tantas acusações que vão de netos e filhos a mordomos e viúvas de amigos beneficiados, se disse vítima de uma campanha difamatória da mídia.

Do ex-presidente da República e atual senador Fernando Collor de Mello, que está mais para treva do que luminar, sabe-se agora que a alimentação de seus seguranças na Casa da Dinda (a célebre moradia dos tempos de PC Farias e quetais) é paga com dinheiro do Senado.

Resposta: Collor nem se dignou a responder, provavelmente por imaginar que, pelo passado que tem, onde as cifras ultrapassavam facilmente a casa do milhão, é bobagem perder tempo com irrisórios (para ele) 4.830 reais com marmitas adquiridas num restaurante chamado, ora vejam, Boka Loca.

De um punhado de senadores, vestais, bestiais e outras rimas mais, apurou-se que 21 deles tem as contas telefônicas residenciais (contas particulares, portanto) pagas com dinheiro do Senado (dinheiro público, portanto). Encabeça a lista de beneficiadas com mais essa mordomia, a ex-senadora e ora governadora do Maranhão, Roseana Sarney, como se já não bastasse a mordomia do mordomo pago pelo Senado.

Resposta: ninguém, até o momento, se dignou a responder, talvez com receio de que, descoberta mais essa mamata, a partir de agora tenham que pagar as ligações telefônicas com dinheiro do próprio bolso e não do nosso bolso.

Qual serão os próximos atos desse verdadeiro teatro do absurdo, onde atores-canastrões se revezam numa sucessão de papéis de vilões com pose de mocinhos, enquanto a platéia (ou a patuléia) assiste sem poder interferir no roteiro?

Ou melhor, pode sim, aproveitando essa fantástica arma chamada voto para mudar os atores e, quem sabe, o roteiro.

Enquanto isso não ocorrer, poderemos até eventualmente entrar em cena nesse teatro, mas apenas e tão somente no papel de palhaços.
Ou de bobos da corte, o que dá no mesmo.
Colaboração da amiga Nancy Lima.

Um comentário:

  1. Que tal providenciar, antes de qualquer outra coisa, alguém que possa assumir o papel de governante com um mínimo de compostura pelo menos, no lugar do animador de auditório que colocaram lá? Já seria um bom começo...

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