domingo, 3 de outubro de 2010

A culpa é do Lula


AYRTON CENTENO

A julgar por todas as pesquisas eleitorais, o Rio Grande do Sul não é mais o mesmo. Culpa de quem? Culpa do Lula, claro. Não se trata de mais uma responsabilidade arbitrária afivelada às costas largas do metalúrgico de nove dedos. Melhor esquecer, portanto, outras culpas atribuídas ao cabra que veio de Garanhuns: o degelo da calota polar, o crack da bolsa de Nova York e a dica de demerol para Michael Jackson. Nada disso. Neste assunto relativo ao estado, Lula é, sim, o culpado. Não é o único, mas é, sem dúvida, o principal.

Pela primeira vez desde a redemocratização, o Rio Grande poderá emplacar o governador e o presidente de um mesmo partido. Mais grave ainda porque a legenda prestes a ser homenageada com a decisão inédita é o PT. Justo o PT que, por uma espécie de reflexo invertido, criou no estado o seu oposto, sem cara, sem sigla, sem bandeira: o antipetismo.

Afirmando-se pela negação, o antipetismo se expressa através de um punhado de siglas conservadoras. É, sobretudo, vocalizado por uma mídia que se ocupa, dia e noite, de semear o rancor no solo fértil de segmentos da classe média tocando no nervo sensível do medo e do preconceito. Se as hostes antipetistas espraiaram-se pelo país, é bem provável que no solo gaúcho – resultado dos 16 anos de PT na Prefeitura de Porto Alegre a partir de 1988 – o fenômeno tenha desabrochado mais cedo. Pois, desta vez, dizem os augúrios que o antipetismo sofrerá seu maior revés.

Lula é culpado porque o crédito, o salário, a renda e o emprego estão bombando. Tem culpa no cartório também por causa do resgate da auto-estima dos brasileiros, resultado das grandes vitórias dentro e fora do país. Como o Rio Grande, em que pesem algumas opiniões discordantes, pertence ao Brasil, não está imune às influências por meio das quais o Planalto – com a aprovação estratosférica do governo e do governante – joga por terra as mitologias em curso e abala as muralhas antipetistas. Assim, Lula e sua obra induzem o voto também no Sul. E o eleitor local, com sua tradição de escolher como inquilino do Palácio Piratini um adversário do poder central, deu o braço a torcer. Sempre segundo as pesquisas, deve enviar, neste domingo ou no segundo turno, Dilma para ocupar a cadeira de Lula e Tarso Genro a de Yeda Crusius. Não é mais o mesmo.

Em 2006, quando alcançou seu pico no estado, o antipetismo posicionou o Rio Grande na contramão do Brasil ao preferir os tucanos Yeda Crusius e Geraldo Alckmin. Derrotado no Brasil, Alckmin venceu Lula nas urnas gaúchas no primeiro e no segundo turnos. No primeiro, livrou uma distância de 22 pontos percentuais (55,7% x 33,1%) sobre o futuro presidente. Em Porto Alegre, outrora cidade rebelde, coração do Fórum Social Mundial, Lula perdeu por 21 pontos!

Agora, as pesquisas atribuem vantagem a Dilma sobre Serra no estado. Tarso tangencia os 50%, distanciando-se mais de 20 pontos do segundo colocado, índice que, até então, nunca seu partido obtivera. A tendência é de que ambos vençam, agora ou no segundo turno. Com a ajuda dos gaúchos demonstrando que, ao contrário do que foi muitas vezes propagado em prosa e verso, não existe incompatibilidade alguma em ser gaúcho e também brasileiro. Brasília Confidencial

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