sexta-feira, 20 de maio de 2011

Não existe apenas uma língua

O fogo pesado disparado contra o livro Por Uma Vida Melhor, de Heloisa Ramos, distribuído pelo Ministério da Educação para a rede pública, faz parte do arsenal da reação conservadora a políticas, apenas ligeiramente progressistas, adotadas nos dois governos Lula e, agora, no governo Dilma Rousseff.


Nesse sentido, é possível seguir o rastro deixado pela oposição e pela mídia, unidos em fina sintonia, por exemplo, contra o Programa Bolsa Família e, também, contra a política externa sem alinhamento automático com os Estados Unidos.


Soma-se a esses ataques outro ingrediente. O forte e enraizado preconceito.


“Língua é ferramenta e sua função primária é propiciar uma comunicação inteligível. Ela é normatizada ao longo do tempo na forma como é falada. Assim é criado o padrão escrito. O passo seguinte é a aceitação de um modelo estético e passa a ser elegante escrever, e também falar, na variante oficialmente reconhecida”, observa o advogado e linguista Ricardo Salles autor, entre outros, do livro Legado de Babel (Ed. Livro Técnico), prefaciado por Antonio Houaiss.


Salles põe o dedo na ferida: “Isso dá, em primeiro lugar, distinção social e, como um subproduto terrível, o preconceito contra aqueles que não falam da mesma maneira”.


Alvejado de variadas maneiras, por variadas intenções e por variados calibres, o livro, quatro volumes de 107 páginas cada um, não ensina nem enaltece erros de português. Mas essa versão, para quem ataca, é melhor do que o fato. O trabalho fornece apenas alguns exemplos da língua popular (quadro).
Toda a polêmica está criada a partir de 30 linhas de apresentação, nas quais a autora orienta o estudante que “não há um único jeito de falar e escrever”. Há variantes que podem ser de origem social. Ela explica:


“As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder –, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”.


Por esse motivo, aliás, Heloisa Ramos não fala em “erro” e “acerto”. Ela usa “adequação” e “inadequação”, e ainda alerta: “…quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.

Salles lembra que formas como “eles vai” e equivalentes já são aceitas em certas línguas europeias, como o finlandês, país do Primeiríssimo Mundo.

Nesse caso específico Ricardo Salles diz que a razão é simples: “Durante muito tempo, a Finlândia fez parte da Suécia e tudo o que era importante se exprimia em sueco e não em finlandês.


A língua finlandesa (idioma uraliano, que não tem qualquer parentesco conhecido com o português) ficou, portanto, relegada a um segundo plano e evoluiu com os falantes com toda naturalidade e, tal como ocorre em outros idiomas, inclusive em português, houve equalização da conjugação verbal pela terceira pessoa do singular”.


Em tempo, o colunista oferece um exemplo banal: quando usamos “você” lançamos mão do que já foi palavra popular variante da língua culta Vossa Mercê.CartaCapital

3 comentários:

Silvia/ Esmeraldas:Gestar II disse...

Como diz o João Ubaldo Ribeiro no documentário "Língua: Vidas em Português": "Somos usuários da língua e não proprietários dela". O que mais me inquieta são os professores de língua materna abraçarem a causa do preconceito linguístico mesmo sabendo que a língua é um instrumento de poder e de opressão. A escola precisa sim ensinar a variante de prestígio social àqueles que não dominam essa variedade da língua, mas precisa também respeitar e reconhecer as variantes de pouco prestígio social que os alunos e alunas entendem, utilizam e dominam. Já estou cansada de ouvir dos estudantes que "Português é muito difícil" e que eles "Não sabem falar Português". É que eles não conhecem nem reconhecem como sua essa variante de prestígio social priorizada na sociedade e pela escola. Há décadas que os PCN's preveem a valorização dessa língua que os estudantes trazem para a escola. Isso é assunto para mais um post. Obrigada por compartilhar essas postagens conosco.
Abraços.

Márcia F. disse...

É lamentável que se tenha feito tantas críticas infundadas a uma proposta progressista do ensino da língua, como é a do livro didático em questão. Por meio da linguagem pode-se, sim, oprimir e desqualificar o outro, como se fez por séculos nas escolas desse país. Agora, quando novos ventos sopram no Ministério da Educação, a elite retrógrada e burra aliada à mídia suja tentam descontruir um belo trabalho. Temos que resistir e não nos furtarmos ao debate.

Anônimo disse...

Proposta progressista? O petismo, além de burro, é criminoso, pois está afundando o país em corrupção e quer acabar até com a língua que se fale aqui. Estamos ficando com a cara do Lula.

Novos ventos na Educação? Só se for um de um furacão de burrice que está pondo tudo abaixo. E NEM vem que não tem.