quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

É a comida, estúpido



Reinaldo Canto


O mundo, assim denominado “rico e democrático”, comemorou a queda de persistentes e longevas ditaduras na Tunísia e no Egito. Esse mesmo mundo “rico e democrático” também exultou, recentemente, os sinais da retomada do crescimento global no Fórum Econômico de Davos.

Como diria a música da Blitz, “tudo muito bom, bom, tudo muito bem, bem”, se não fosse uma questão que vem sendo tratada de maneira bastante marginal dada a sua importância e urgência: a crise mundial de alimentos!

Quem acompanhou a cobertura passo a passo das manifestações que tomaram, primeiramente, as ruas de Túnis capital da Tunísia e até dias atrás as ruas e a agora globalmente conhecida Praça Tahrir, no Cairo, viu, ouviu e leu, os líderes da oposição e a própria população declararem estar fartos de corrupção, repressão e ávidos por liberdade. Mas esse contundente, basta! ocorreu, no caso da Tunísia, 23 anos depois da tomada do poder de Zine El Abidine Ben Ali e no caso do Egito após 30 anos da ditadura de Hosni Mubarak. E por que só agora?

Ao lado de fatores políticos, sociais e tecnológicos (redes sociais, internet e celulares contribuíram para disseminar as informações sobre os protestos), o aumento no preço dos alimentos é algo que não pode ser visto como secundário nos protestos.

Segundo a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), em dezembro de 2010, os preços do trigo, óleo, milho, arroz, carne e leite tiveram aumentos recordes. O milho sofreu reajuste de 60%, o trigo de 43% e o açúcar aumentou 77%.

O aumento no preço dos alimentos afeta a todos, mas os países africanos estão entre os que importam a maior parte da comida consumida por seus povos. O Egito se destaca como um dos maiores importadores do mundo, principalmente cereais. Como em outros países árabes ao lado do Egito, entre eles a Tunísia e a Argélia, as famílias gastam de 40% a 50% da renda na compra de alimentos.

A comida mais cara agravou o problema do desemprego, já crônico entre os jovens dos países citados. E esses fatores estão muito longe de se restringir apenas as nações já convulsionadas por rebeliões. A situação ainda tende a se agravar.

Além da redução das áreas de plantio em razão da degradação do solo e das mudanças climáticas, além do uso de terras agricultáveis para a produção de biodiesel, a China aparece como outro grande fator de desestabilização. A previsão é a de que o gigante asiático irá importar 8 milhões de toneladas de milho e, tal volume deverá dobrar até 2015.

Será coincidência que tenha sido exatamente no continente africano, o mais afetado pela escassez e subida de alimentos, o palco de duas revoluções quase simultâneas?

Alguém acredita que, subitamente, a população egípcia decidisse derrubar Mubarak por apenas almejar a democracia. Adoraria acreditar que sim, mas tenho cá minhas dúvidas.

Até mais grave que o problema dos preços e da escassez dos alimentos está a incapacidade de nossas lideranças de enxergar os caminhos que busquem as soluções. Quando tentam, invariavelmente, reduzem a uma questão em defesa de interesses de fronteiras ou blocos.

É o caso da proposta do presidente francês, Nicolas Sarkozy, de controlar o preço das commodities. Felizmente, essa ideia não avançou quando apresentada no Fórum de Davos, o que traria ainda maiores problemas, pois o prejuízo seria grande para os países pobres exportadores de alimentos.

Como dito anteriormente, pensar o mundo em blocos e fronteiras é no mínimo burro. Todos os dias nos chegam sinais mostrando que a vida no planeta depende de visões e soluções globais. A sustentabilidade precisa parar de ser vista como utopia e sonho de ambientalistas. Ou trabalhamos em busca de um mundo mais sustentável ou teremos um futuro incerto e perigoso.

Enquanto assistimos a queda de ditaduras vemos motivos para comemorar e nos solidarizar com esses povos, mas o fato é que a crise de alimentos não vai se restringir aos países autoritários. Mesmo as democracias não estarão seguras se as pessoas não tiverem o que comer.

O título do artigo é uma adaptação livre para o bordão “É a economia, estúpido!” usado na disputa presidencial de 1.992 nos Estados Unidos pela campanha vitoriosa de Bill Clinton. Naquele ano Clinton derrotou Bush pai que tentava a reeleição, ao chamar atenção para as reais preocupações do povo norte-americano.


Reinaldo Canto


Reinaldo Canto é jornalista com 30 anos de profissão. Trabalhou em emissoras de rádio e TV, Record, Globo, SBT, Bandeirantes e Jovem Pan, entre elas. Atuou como assessor de imprensa de grandes empresas. Especializou-se em sustentabilidade e consumo consciente, foi diretor de Comunicação do Greenpeace, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e correspondente da Envolverde, Carta Capital e mídias ambientais na COP-15 em Copenhague. É colaborador da Envolverde.

Fonte:CartaCapital

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