quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sabatinas: Serra adota discurso contraditório para atacar Dilma



Na segunda-feira (21), duas sabatinas --uma no UOL/Folha e outra no programa "Roda Viva", da TV Cultura-- serviram de palco para que o presidenciável da oposição de direita, José Serra (PSDB), pudesse desfiar todo o seu rosário autobajulatório. Sabatinado por jornalistas amigáveis, que evitaram emparedar o candidato tucano, Serra ficou à vontade para apresentar seu "show" marcado por afirmações contraditórias que flertam com a hipocrisia.


Exemplo disso foi dizer que é vítima de um "dossiê" feito por petistas; que o governo federal usa a "máquina" a favor da candidatura Dilma -- como se o governo paulista não fizesse coisa muito pior--, e, a mais satírica de todas: reafirmar que é "de esquerda".

A sabatina no UOL foi realizada na própria segunda-feira, na parte da manhã --estava marcada para as 11h, mas Serra só chegou às 11h42. A parte da manhã é um período do dia em que Serra geralmente está de mau humor, pois costuma dormir muito tarde e acordar tarde. Esta particularidade do comportamento do tucano já lhe rendeu muitas dores de cabeça e até atritos com jornalistas em entrevistas matutinas. Mas, desta vez, Serra controlou-se e foi cordial com os entrevistadores, que retribuíram fazendo-lhes perguntas pouco desafiadoras. Participaram da sabatina no UOL os jornalistas Vera Magalhães, editora do caderno Poder da Folha de S. Paulo; Renata Lo Prete, editora do Painel da Folha; Fernando Rodrigues, colunista da Folha e do UOL, e Rodrigo Flores, gerente-geral de notícias do UOL.

Perguntas enviadas por internautas e pela plateia que foi ao Teatro Folha, em São Paulo, também foram respondidas pelo candidato.

Como vacina contra livro, tucano posa de vítima de dossiês

O UOL já havia promovido sabatina semelhante com a candidata do PV à presidência da República, Marina Silva. E pretendia sabatinar a candidata petista Dilma Rousseff, mas a ex-ministra da Casa Civil declinou do convite. Os coordenadores de sua campanha avaliaram que Dilma tem mais a perder do que ganhar participando deste tipo de sabatina em terreno hostil. A Folha reclamou bastante do cancelamento da participação da candidata e o resultado mais visível deste descontentamento foi estampadao durante todo o dia de ontem no UOL, que escolheu a dedo uma frase provocadora de Serra contra Dilma como chamada principal do portal: "Dilma deve desculpas por dossiê, diz Serra", foi o título escolhido.

Na sabatina do UOL e depois também no "Roda Viva", Serra reafirmou a acusação de que a campanha de Dilma estaria por trás de um suposto dossiê contra ele e disse que "a melhor coisa quando tem um erro que é óbvio é se desculpar e encerrar o assunto. Outra coisa é culpar a vítima. Aquele famoso dossiê dos aloprados parecia que o culpado era a vítima. Não houve um pedido de desculpas, nem nada. Significa que vão continuar fazendo”, criticou o ex-governador de São Paulo, repetindo um discurso que já vinha adotando com o objetivo de posar de vítima de um pseudo-dossiê e, assim, neutralizar as gravíssimas acusações e indícios de corrupção que pesam contra ele e que estão documentados num livro a ser lançado em breve pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Aliados de Dilma e a própria candidata não passaram recibo e responderam com vigor às ilações do tucano. "Ele é quem tem de pedir desculpa, porque está levantando contra nós uma coisa que ele sabe que não produzimos", afirmou Dilma, em entrevista à rádio Educadora Jovem Pan, de Uberlândia (MG) nesta terça-feira (22). "Eu repudio e chamo de falsa esse tipo de acusação", acrescentou Dilma.

A candidata do PT também criticou a declaração de Serra no programa Roda Viva, da TV Cultura, questionando a taxa de crescimento de 9% registrada no primeiro trimestre. Para Dilma, "é inegável" que o Brasil vive hoje outro momento. "Ao contrário do que aconteceu no governo anterior - do qual o candidato José Serra participou, tanto como ministro do Planejamento, quanto como ministro da Saúde -, em que havia estagnação, desigualdade e um imenso desemprego, é absolutamente incontroverso que o Brasil cresce e cresce a taxas muito altas."

Segundo ela, o crescimento médio da economia deverá ficar entre 6% e 7% no final do ano. Para a candidata, o discurso de Serra é uma tentativa de "descaracterizar" as vitórias do governo Lula nos últimos anos.

O líder do governo na Câmara dos Deputados, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), também reagiu. Ele disse ontem que Dilma está tendo de lidar com um concorrente que não tem proposta de governo e que utiliza a denúncia do suposto dossiê para desviar a atenção do debate de planos para o país.

Governo na campanha e "terrorismo" na internet

Na sabatina do UOL, Serra acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de usar a máquina pública em benefício da candidata do PT. Para o tucano, o lançamento por parte do governo federal de um programa de combate ao crack, no mês passado, teve vistas às eleições.

Os entrevistadores não questionaram Serra se ele também não considera uso da máquina pública na campanha a enorme quantidade de anúncios publicitários na TV feitas nos últimos meses pelo governo de São Paulo com clara conotação eleitoral.

No "Roda Viva", o tucano também acusou os adversários de usarem de "terrorismo" para tentar minar sua campanha e sua imagem, principalmente em debates regionais e por meio da internet. Citou um texto divulgado em blogs por uma pessoa ligada a Lula e Dilma afirmando que ele acabaria com o Programa Universidade para Todos (ProUni) caso eleito. "Eu nunca disse isso. Tem tanta coisa maluca espalhada. Esse é o método terrorista. Não violento, mas terrorista."

Em resposta, a jornalista Jussara Seixas, do Blog da Dilma --que teve que mudar o nome para Blog da Militância pois está sendo alvo de ações judiciais provocadas pelo tucanato--, publicou uma nota afirmando: "Desde quando mostrar a face verdadeira dos fatos é terrorismo? Ao longo de todo o governo Lula, o PSDB/DEM chamou o Bolsa Família de bolsa esmola, de bolsa eleitoreira. Várias vezes o eterno candidato Serra disse que o Bolsa Família não era um bom programa para erradicar a miséria. O ProUni sempre foi duramente criticado pelo PSDB/DEM, a ponto de o DEM entrar no STF com uma Adin de inconstitucionalidade contra o Prouni a pedido do Confenem, entidade patronal que representa os estabelcimentos de ensino. Na ação se pede a declaração de inconstitucionalidade da lei que criou o ProUni. O DEM é parceiro de Serra, é seu aliado; se o Arruda se não tivesse sido pego com a mão na massa e preso, seria seu vice: como disse publicamente o próprio Serra, "vote em um careca e leve dois". Isso sim é terrorismo".

Já o blog Amigos do Presidente Lula contestou o tucano dizendo que "Serra sempre contou com a blindagem da imprensa para que os escândalos de corrupção que aconteceram em seu entorno, fossem varridos para baixo do tapete" e "se a imprensa demo-tucana é corrupta a ponto de abafar escândalos de corrupção de seus protegidos, a internet acaba fazendo o papel que a imprensa deveria fazer: informar a verdade".

Planejador neoliberal acredita que está mais à esquerda que Lula

Uma das pérolas ditas por Serra durante a sabatina foi a de que ele se considera de esquerda. Em outras entrevistas, Serra já afirmou que está "mais à esquerda que Lula".

Também neste tema, os jornalistas entrevistadores não questionaram a hipocrisia do candidato tucano. Para desmascará-lo, bastava lembrar que quando foi ministro do Planejamento durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Serra aplicou diversas políticas de viés neoliberal como as privatizações, o corte drástico de gastos públicos nas áreas sociais, o achatamento salarial dos servidores públicos e a defesa de reformas visando diminuir a participação do Estado na economia.

Esta mesma linha foi aplicada durante suas gestões como prefeito da capital paulista e governador de São Paulo. Com o agravante de ter governado sempre ao lado das forças políticas mais conservadoras e rejeitando qualquer diálogo com os movimentos sociais e com os trabalhadores. Se isso é ser de esquerda, então o conceito de esquerda de Serra precisa ser explicado por alguma nova teoria política.

Sobre isso, o deputado Cândido Vaccarezza disse que Serra tirou “a pele de cordeiro” e voltou a apresentar as ideias da “velha direita”. “Não sei se você lembra quando a Dilma [Rousseff] disse que ele estava vestindo uma pele de cordeiro, mas de vez em quando as patinhas apareciam. Não deu certo. Então, ele tirou a pele de cordeiro e agora é a velha aliança à direta, que governou um país num período no PSDB com o antigo PFL (atual DEM)”, afirmou.

Para Vaccarezza, "Serra deu uma guinada à direita em todas as questões: este ataque à Bolívia, o ataque ao Mercosul, o ataque da independência do Brasil em relação aos Estados Unidos representam a guinada à direita. A próxima vai ser a aceitação dele de um nome do DEM para ser o vice”, completou o deputado.

Da redação,
Vermelho com agências

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