
07/08/2009
Cynara Menezes
A imprensa brasileira, que adora plagiar os títulos dos romances de Gabriel García Márquez, já tinha preparado de véspera suas manchetes de Crônica de uma Morte Anunciada para José Sarney, confirmando o prognóstico do Outono do Patriarca maranhense. Mas, sendo as tramas da política tão imprevisíveis quanto as da literatura, o enredo que se deu foi o Relato de Um Náufrago. À deriva, abandonado pelos companheiros de partido, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, era quem lutava desesperadamente na volta do recesso para salvar o próprio mandato da cassação, juntar os cacos de sua reputação como parlamentar ético e tentar garantir sua reeleição no ano que vem.
O drama do líder tucano expõe a pantomima da pseudocampanha de moralização do Senado e que não passa, no fundo, de uma disputa política cujo pano de fundo é a sucessão presidencial de 2010. Não que essa vitória tática da tropa de choque de Sarney deva ser aplaudida. É uma lástima para o Brasil e para a melhora dos costumes políticos. Mas ela reflete o resultado de uma novela em que só os distraídos e os de má-fé foram capazes de associar a uma luta entre o Bem e o Mal. Os moralizadores e os iníquos. Era e é, na verdade, uma disputa com objetivos bem menos nobres. Neste vale-tudo de intenções, ganha quem pratica os golpes mais baixos. E, nesse ponto, a tropa sarneyzista domina o ringue.
Virgílio, que há dois meses anunciava “o fim da linha” para quem fez carreira política como “ético profissional”, agarrava-se ao salve-se quem puder no qual já se encontravam democratas, peemedebistas e petistas, cada um à sua maneira posando diante dos holofotes como os derradeiros guardiões da moralidade numa Casa desregrada, apenas para não perder futuros votos nas urnas.
Embora os líderes de quatro partidos (PSOL, PSDB, PDT e DEM) tenham decidido assinar um manifesto conjunto pedindo o afastamento de Sarney da presidência para responder às denúncias, prenunciam-se tempos melhores para o maranhense. Seu discurso da quarta-feira 5 fez diminuir a temperatura no Senado e quatro das onze representações contra sua administração foram arquivadas, no mesmo dia, pelo Conselho de Ética. Como se não bastasse, Sarney ainda conta a seu favor com o auxílio involuntário do líder tucano, também enredado em denúncias e alvo de uma representação protocolada pelo PMDB.
No fim das contas, se Sarney conseguir se safar das acusações à sua gestão na presidência do Congresso, não será apenas por causa do PMDB, mas, ironicamente, também graças ao tucano Virgílio. Em termos jurídicos, a situação do líder do PSDB é tão ou mais complicada que a do colega peemedebista. Enquanto, no discurso na quarta-feira 5, o presidente do Senado negava mais uma vez as acusações que lhe vêm sendo feitas desde sua posse, em fevereiro, Virgílio admitira em plenário ter recebido um empréstimo de 10 mil reais do ex-diretor-geral da Casa, Agaciel Maia, para pagar despesas durante uma viagem de férias com a mulher no exterior, e ter mantido um funcionário na Espanha com salário pago por seu gabinete. Trata-se, no raciocínio de seus adversários, de um “réu confesso”.
* Confira a íntegra da reportagem na edição impressa de CartaCapital.
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