quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O bom coração de Serra




16 de setembro de 2009


Recife (PE) - Esta semana li no blog do Nassif um trecho de boa matéria de Vandson Lima, repórter do Valor Econômico, que vale a pena recuperar:

“No fim da cerimônia, que contou com simpatizantes ilustres do PSDB, como o jogador Ronaldo, do Corinthians, o apresentador de TV Luciano Hulk e o comediante Tom Cavalcante – que segundo Aécio é, além de um grande artista, ‘um pensador sobre o país’ -, Serra foi abordado por dois meninos de rua. O governador, buscando simpatia, puxou conversa, perguntando para que times de futebol eles torciam. Só que Cainã e Caíque foram cobrá-lo por uma promessa não cumprida: em uma visita a uma comunidade carente da Barra Funda, Serra garantiu aos garotos que lhes daria pipas e piões. Desconversando, Serra perguntou onde moravam, para envio dos presentes, e a resposta não poderia ter sido mais constrangedora: ‘na rua, aqui na [Avenida] Rebouças, pertinho. Mora bastante gente lá’. O governador sacou algumas notas do bolso (quanto e a quantas terá ido o seu belo coração? ), deu aos meninos e foi embora”.

O interessante é que esse trecho, ao fim da matéria, passou como uma falha no sistema de edição da grande imprensa, mas se tornou o melhor de tudo. Esse final veio em reportagem sobre a inauguração de um Espaço Minas no centro de São Paulo, com Serra, Fernando Henrique, Aécio Neves, Alckmin e outros ilustres do discurso falido. Para o ato heróico do repórter nesse breve respiro de realidade, alinhavo alguns comentários.

“Ronaldo, do Corinthians, o apresentador de TV Luciano Hulk...”. Ronaldo, dentro do campo de futebol, continua um fenômeno. Pulemos o fora. Já Luciano Hulk, dentro ou fora do seu campo, difícil é dizer onde exerce melhor o lado artístico. De marido de Angélica (sim, aquela de um torturante sinalzinho) a programas de lacrimosa caridade, com visitas surpresas onde faz o papel de anjo bom com o dinheiro do patrocinador... pulemos também essa parte. Mas o que fazer com “o comediante Tom Cavalcante – que segundo Aécio é, além de um grande artista, ‘um pensador sobre o país’”?

Tom Cavalcante, grande artista e pensador brasileiro? Never, Neves. Um gosto assim é um carimbo na testa, “ninguém aqui é mais medíocre que eu”, de um político que se candidata a presidente do Brasil. Mas vamos adiante, que na mediocridade grande cabem momentos inesquecíveis. Pulando Neves, “Serra foi abordado por dois meninos de rua. O governador, buscando simpatia...”. Mas em que reservas? pergunta este colunista. Dentro dos próprios e inescrutáveis olhos grandes?

“... Só que Cainã e Caíque foram cobrá-lo por uma promessa não cumprida: em uma visita a uma comunidade carente da Barra Funda, Serra garantira aos garotos que lhes daria pipas e piões”. Mas que bom coração tem o governador! Deveria ser recebido por meninos das “classes menos favorecidas” com a canção “Serra, serra, serrador, serra madeira pro nosso senhor”. Mas deixa de maldade, ó escrivão: por que não poderia o governador, num lapso e frêmito no peito, prometer o brinquedo da longínqua infância que os anos não trazem mais? O governador tem um coração onde cabem o arbítrio e o sentimento mais démodé. Puro como a naftalina. O Serra Saúde, que decretou o fim da fumaça, determinou este fumo: “para meninos sem nada, pião e pipa. Prometo”. Mas para quê, se o Serra bom coração não cumpriu?

Então “Serra perguntou onde os meninos moravam, para envio dos presentes, e a resposta não poderia ter sido mais constrangedora: ‘na rua, aqui na Rebouças, pertinho. Mora bastante gente lá’. Que susto, que atrapalho, meninos. A isso, o Serra bom coração poderia ter observado, ajoelhando-se, a pegar no queixinho sujo do trapo: “Na rua, é? Mas que interessante. Lindo”. Para depois se levantar, enquanto assessores o limpassem nos dedos emporcalhados, dizer: “Estão vendo? Eu, quando era menino, sempre quis viver na rua. Mas fui muito preso. Estes meninos são livres”. Mas não, segundo o repórter, ele fugiu e fulgiu pelo caminho mais fácil: “O governador sacou algumas notas do bolso, deu aos meninos e foi embora”.

Que pena. Ficamos nós presos, os curiosos, sem saber em quantas notas anda a caridade do governador. Qual o tamanho da sua misericórdia? O que os meninos acharam, disseram enfim, do senhor governador, da sua grana e da promessa não cumprida? Esperamos a verdade dos meninos em uma próxima edição. Quem sabe com o título, “Meninos livres falam do Serra bom coração”.

Urariano Mota, Direto da Redação.

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