segunda-feira, 7 de maio de 2012

Serra convoca os fanáticos religiosos


Carlos Pompe *


O candidato da direita à prefeitura de São Paulo, José Serra, quer repetir na campanha deste ano o desserviço que fez à democracia e ao país na última eleição presidencial. Em conluio com o que há de mais reacionário nas cúpulas das organizações religiosas, quer substituir o debate político pelos ataques ao estado laico, à liberdade de pesquisa, de opinião e de deliberação sobre o próprio corpo.

Em entrevista ao Programa Amaury Jr., da RedeTV!, Serra declarou que se "a pessoa tem uma religião e quer discutir princípios, é legítimo que o faça. Não são os candidatos que fazem a agenda. Quem faz a agenda são as pessoas". Ainda tergiversou: "Nós devemos respeitar e dar a elas o direito de se manifestar. Do contrário, seria autoritarismo".
Na eleição presidencial de 2010, grupos religiosos de direita apoiaram abertamente o candidato demo-tucano e, em vez de discutir projetos políticos para o país, passaram a atacar Dilma, acusando-a de ser favorável ao aborto, à criminalização da homofobia e de ser ateia. Ao contrário do que Serra afirma, não foram “as pessoas” que pautaram essa agenda, mas os donos da mídia direitista e seus assalariados servis, os líderes religiosos reacionários e o comando da sua coligação, formada por PSDB e DEM e integrada por PTB, PMN, PSDB, PTDOB e PPS, que até a esse papel se rebaixou, apesar de parte de sua militância e eleitorado se enojar do rumo adotado.


Durante a campanha, o candidato da direita não se pejou de acionar sua esposa, Mônica Serra, para acatar a adversária. A ex-primeira-dama de São Paulo desceu ao nível de dizer, num ato político, que Dilma era “a favor de matar as criancinhas". Só se calou quando ex-alunas de seu curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) relataram que Mônica contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido. Ou seja, ela, Mônica, seria uma assassina de crianças, pela pregação que adotara para ajudar o marido. Mais uma falsa moralista flagrada em contradição entre o discurso e a prática efetiva.

O atual sistema político brasileiro não é autoritário, mas democrático, mesmo que seja uma democracia burguesa, e não socialista. No Brasil há liberdade religiosa e todas as seitas têm e exercem o direito de se manifestar e organizar – não há nenhum autoritarismo em relação ao tema. Pelo contrário, o que existe é a constante invasão de símbolos e práticas religiosas em instituições públicas, desrespeitando o Estado laico, a crença de religiosos não-cristãos e os ateus.

A religião não é assunto para debate eleitoral, mas uma opção, a ser exercida ou não, individualmente. Também não cabe, numa disputa pelos rumos políticos, econômicos e sociais de um município, estado ou país, trazer para o debate o aborto ou a criminalização da homofobia. Quem o faz é por má fé. Mesmo porque sequer tem a honra de respeitar os argumentos e razões de quem pensa diferente de seus dogmas.


Quando se referem ao aborto, os religiosos reacionários dizem que quem é a favor da descriminalização o estão incentivando. Isso é uma falsidade. Permitir a realização do aborto com a segurança do atendimento médico e psíquico é um respeito à mulher que se vê na necessidade de realizá-lo. Assim como a não criminalização do homossexualismo é um respeito à pessoa que assume essa opção, e não um incentivo a assumi-la. Criminalizar a homofobia é uma exigência de direito humano. Ninguém, mesmo usando os absurdos argumentos religiosos, deve ter o direito de agredir, verbal ou fisicamente, um semelhante devido à parceria sexual que escolhe.

O recurso aos temas morais na política é o refúgio dos exploradores, dos conservadores. A moral de uma época é parte da ideologia da classe dominante. À burguesia, classe dominante da época que vivemos, interessa conservar as relações econômicas e de poder em que explora os trabalhadores, arranca-lhes a mais-valia e impõe-lhes seus valores individualistas. Para isso recorre a corruptos, demagogos e ao opiáceo religioso reacionário, para semear a submissão e a passividade nas amplas massas. Por isso o apelo de Serra aos obscurantistas e seus preconceitos, ontem e hoje.

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